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A relação entre consumo e desemprego

A lei de Say: versão deturpada

O primeiro contato que tive com a Lei de Say, foi em minha aula de macroeconomia, onde temos ela — a lei de Say — descrita como “uma ideia errônea de que a oferta é criada pela demanda”. Esta citação está presente no livro da “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, de John Maynard Keynes.

Eu não sei como as pessoas, em geral, são, mas quando eu vejo uma referência, eu vou atrás da fonte para ver se bate com o que foi falado — foi assim que virei um adepto a Escola Austríaca de Economia, por sinal. Quando li o “ Tratado da economia política” da série “Os Economistas” de Say¹, não consegui encontrar a interpretação Keynesiana deste livro. E nem me refiro buscar as mesmas palavras usadas, pois elas podem ser um corolário da interpretação do livro. Não estou afirmando que Keynes não tenha lido Say — ainda que Hayek tenha afirmado que Keynes leu pouco sobre os clássicos — , mas que sua interpretação está incorreta.


A lei de Say e o que ela de fato diz

Quando li o tratado de Say na busca da interpretação de Keynes, o que considero a escrita que poderia justificar a fala de Keynes se encontra na página 134 em diante — na versão americana. Say abre o argumento onde comenta que “o dinheiro não é um fim em si, mas sim um meio para você adquirir um determinado produto — consumir” e que “ao finalizar seu produto, o produtor estará ansioso para vender o mesmo, buscando evitar a perda do valor de seu produto; também é verdadeiro que ele buscará um fim para seu dinheiro, que também é perecível, e a única forma de fazer isso será na compra de novos produtos. Portanto, a mera criação de um determinado produto, possibilita a criação de novos mercados”.


Me parece sensato dizer que a produção possibilita o consumo, e não o cria automaticamente conforme admitido erroneamente. E faz sentido pensar isso. A lei de Say, em última instância, é admitir a obviedade de que a produção precede o consumo.


Se eu pudesse criar um mapa verbal da lei de Say, eu diria que seria da seguinte forma: usamos de um meio — recurso escasso — que não foi consumido para disponibilizar determinados recursos para um consumo futuro; o tempo entre a disponibilização deste recurso até o seu fatídico consumo é conhecido como poupança; esta poupança possui uma identidade com o investimento — realocar recurso na expectativa de aumentar seu retorno num futuro; este investimento possibilitará uma produção de valor maior no futuro; esta produção ocorrerá na expectativa de que o recurso seja consumido no futuro.


Ou seja, poupança é um não-consumo que possibilita o investimento, que será usado para aumentar a capacidade produtiva na expectativa de que alguém consuma este determinado recurso. Portanto, a produção ocorrerá na expectativa de que alguém demande este recurso para que eu obtenha um determinado bem — como o dinheiro que me será ofertado, por exemplo — para eu poder dar o fim, que mais valorizo, para ele — consumir ou investir o mesmo.


Say ainda determina, como exemplo, que “uma boa colheita é favorável, não apenas ao agricultor, mas, também, para todos os revendedores de todas as mercadorias em geral. Quanto maior a colheita, maiores serão as compras dos produtores — margem para má interpretação, já que não trata da possibilidade de uma maior compra, mas sim de uma certeza. Uma colheita ruim, pelo contrário, prejudica a venda de mercadorias em geral. E assim também é com os produtos de fabricação e comércio. O sucesso de um ramo do comércio fornece meios de compra mais amplos e, consequentemente, abre um mercado para os produtos de todos os outros ramos; por outro lado, a estagnação de um canal de manufatura ou comércio é sentida em todo o resto”. O que torna ainda mais fatídico a interpretação de que, a lei diz que a produção precederá o consumo e ocorrerá na expectativa de uma determinada demanda que possibilitará novos mercados e novas demandas no momento em que a expectativa se concretiza.


A primeira publicação do tratado de Say foi em 1803, porém seus ensinamentos são válidos até hoje. Veja, ainda em 1803, como poderá ser visto na página 139, Say diz que “[…] o mero consumo não beneficia o comércio; pois a dificuldade reside em fornecer os meios, não em estimular o desejo de consumo; e vimos que somente a produção fornece esses meios. Assim, o objetivo do bom governo é estimular a produção, do mau governo, incentivar o consumo”. Eu discordo da necessidade de uma política para qualquer relação humana, mas a política de estimulo ao consumo se mostrou muito danoso nos últimos tempos.


A real causalidade entre consumo e desemprego

É muito importante distinguir correlação com relação causal. A correlação indicará o “grau de associação linear” entre duas variáveis. A causalidade “não se dará, apenas, pela mera dependência de uma variável comparada com a outra”, mas sim de “nossas ideias sobre a causalidade” que “virá de fora da estatística, virá de uma teoria”. A causalidade, portanto, deve recorrer aos juízos a priori.


Veja, eu não abri este escrito com a lei de Say à toa. Eu abri deste modo para, justamente, seguir o “manual econométrico” e definir o que de fato causa o que. Não vejo como é possível o baixo consumo causar desemprego se, para consumir algo, é necessário que haja uma produção prévia. Ou seja, é justamente o fato de que há trabalhadores que “novos mercados podem ser abertos” no momento em que o produto produzido foi consumido: é justamente pelo fato de indivíduos terem seus empregos que o consumo é possibilitado.


Pode-se até definir que um determinado nível de emprego permitiu um determinado nível de consumo e que, as realizações do consumo do que foi produzido, permitiu novos mercados, mas é justamente quando regredimos ao máximo é que percebemos que, no fim, o que permitiu o consumo foi o emprego — e não o contrário.


Empregos equivocados geram desemprego

O que gera desemprego não será o baixo consumo, pois este evento só ocorre por conta de um simples fator: a má alocação de recursos do setor produtivo. É justamente por eu errar as minhas expectativas é que, determinados bens ficarão em estoques e não serão consumidos — não permitindo que eu receba o dinheiro e crie, possivelmente, novos mercados. Veja, eu nem estou apontando o que pode causar a má alocação de recurso, pois há vários fatores além das interferências estatais. Meu argumento aqui é que o emprego só gerará um consumo da medida em que as expectativas do empreendedor estiverem corretas e que, portanto, qualquer emprego que surja por conta do acerto da expectativas, ou seja, pelo consumo que ocorreu, não torna o argumento de que determinado consumo tenha uma relação inversamente proporcional com um determinado nível de desemprego: uma vez que foi um emprego inicial que possibilitou um consumo e, portanto, este outro emprego hipotético.


Ora, se o emprego só gerará um consumo da medida em que as expectativas do empreendedor estiverem corretas, porém, se ele errar na suas expectativas e não haver consumo de seu produto, então podemos admitir que, além novos mercado não serem possíveis de criar — ele não terá o dinheiro para consumir demais produtos — , a decisão errônea de empregar alguém na expectativa de um consumo que não se realizou poderá gerar o desemprego futuro deste mesmo indivíduo ao mesmo tempo que não permite que novos empregos sejam criados. Ou seja, a má alocação de recursos — empregar alguém para produzir algo na expectativa de que seja vendido — não causou um consumo que, portanto, não permitiu aberturas de novos mercados e, caso isso venha a se repetir, não haverá sentido em manter o empregado e a respectiva produção.


Conclusão

O erro em achar que baixo consumo gera desemprego está em não estabelecer a causalidade corretamente — o que é muito comum. Se fosse para expressar matematicamente a relação entre consumo e desemprego, fará sentido os equívocos que ocorrem na leitura dos mesmos, conforme equação abaixo:



Como argumentei, não há como consumir algo sem que haja um determinado nível de produção — realocar ao menos um recurso escasso para direcionar um determinado recurso para um consumo esperado — prévia. Portanto, é fato que, para alguém consumir algo, ela precisará produzir antes — ela precisará ter um emprego ou espoliar o recurso. Ainda que o consumo se realize e gere outros empregos, isso só será possível por conta de um emprego inicial, conforme argumenta Say — que não, nunca disse que a oferta gera uma demanda.


OBSERVAÇÕES

[1] Quando li o “Tratado da Economia Política”, li a versão em português, porém como só tinha disponível na biblioteca, eu tive que referenciar, no escrito, com o livro em inglês.

REFERÊNCIA

GUJARATI, Damodar N.; PORTER, Dawn C. Econometria Básica-5. Amgh Editora, 2011.

HAZLITT, Henry. Economia numa única lição. J. Olympio, 1986.

KEYNES, John Maynard. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. Editora Saraiva, 2017.

SAY, Jean-Baptiste. A Treatise on Political Economy or the Production. Distribution and Consumption of Wealth, New York: Kelley, 1964.

VARIAN, Hal R. Microeconomia-princípios básicos. Elsevier Brasil, 2006.

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